domingo, 6 de março de 2011

O Conhecimento de Si


E então aquela água que lhe confortava virou uma chuva de canivetes. Todo aquele calor que caía sobre seu corpo tornou-se lâminas a lhe cortar. Agora que não se tem mais o conforto do seu “canto” - o lugar onde parava pra pensar e refletir sobre sua vida -, já não tem para onde ir.
Após perder algo que lhe importava, se foi em busca de outro objetivo, porém, com um vazio, um vazio que não conseguia preencher.
 Toda vez que parava para lembrar-se das gotas que desciam por seus ombros, vinha-lhe a imagem daqueles filetes de gelo pontiagudos caindo e cortando sua sensível pele, abrindo seu corpo aos poucos. E então, depois de viver sua vida num lugar aconchegante, onde sentia segurança, onde se sentina inalcançável, ele encontra uma pequena casa de madeira. Ao entrar se depara com outro garoto. Os dois se observam “olho-a-olho”, ele tenta dizer algo, mas não consegue. O garoto, assim como ele, está assustado e apenas esperando alguma ação. No decorrer desta situação o garoto decide não fazer nada. Os dois, agora, parecem estar calmos e sentam-se em uma mesa, um de frente pro outro. Quando analisa a casa sem se importar com o outro garoto a sua frente e ao voltar os olhos para mesa, vê que o garoto o imita, antes não tinha percebido suas ações, mas agora mais calmo ele vê. O garoto o imita todo o tempo. Ele não consegue dizer nada, vê que o garoto não iria lhe fazer mal. Sem ter para onde ir, decide ficar ali com o pequeno observador.

Após algum tempo vivendo ali com o garoto que o imitava, ele decidiu chegar perto do garoto, pois queria conversar com ele, ter mais contato e não viver apenas o observando imitar-lhe com gestos nada perfeitos.
Agora ele se aproxima, vê o garoto mais perto, e abre os braços para tentar abraçá-lo e percebe, então, que na mesma hora o garoto faz o mesmo. Ele fica tão feliz por estar sendo correspondido que acelera o gesto, sua emoção é tanta que ele treme e vê o garoto fazendo o mesmo até que  descobre que não pode abraçá-lo, pois ele esta trancado em uma parede, da qual, até então, não sabia da existência. Seus corpos estão juntos, mas não podem se abraçar ou se sentir, muda o gesto e coloca sua mão junto a do seu imitador, ele como sempre, faz o mesmo e agora os dois estão com as mãos juntas porem separadas por uma parede. Nessa situação descobre que aquele garoto não passa de uma imagem refletida pelo espelho que ele não havia notado, nunca havia visto seu reflexo antes, então não percebeu que aquele que lhe fazia companhia, que lhe fazia feliz naquele espaço era ele mesmo. Foi quando percebeu que não precisava de mais ninguém para ser feliz além de si mesmo. O lugar não importa as pessoas não importam, nada importa quando se tem a si mesmo, quando enxerga a própria existência.

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